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20/03/2007 16:00
O Russo
Dmitri Visotsky é um homem simples: poucas posses, poucas palavras e pronto. Dá aulas de particulares de russo em sua casa, e isso lhe serve para ocupar seu tempo e pagar suas contas. Faz isso desde que saiu da Rússia há muitos anos. Na Rússia Soviética, a televisão assiste você, ele dizia. Seus alunos não estão muito interessados no idioma, mas o russo é um sujeito simpático e interessante. Seu público arregalava os olhos, outros riam, e todos pensavam sobre Dmitri, a Rússia Soviética e sobre o que ele queria dizer com aquilo. Mas sempre tinha alguém que queria ouvir os conselhos de Dmitri.
Entre uma aula e outra, corria para buscar sua cachorrinha Laika, que pulava a cerca para enterrar seus brinquedos no quintal do vizinho. Dmitri! Tire esse tuo cachorro imundo do meu quintal, gritava o velho. O italiano respirava um ramerrão de palavrões monossilábicos, e quando precisava falar, era sempre por meio de impropérios e aos berros, pouco importava se o interlocutor estivesse a um metro dele. Cantos da boca caídos, sobrancelhas grossas formando uma linha reta na testa, expressão de vilipêndio e a pança redonda vestindo aquela camiseta branca. Parecia que ele usava a mesma camiseta desde que fugiu da guerra. A casa do italiano cheirava tão mal e a mobília estava tão carcomida que o velho preferia mesmo passar os dias no quintal, com sua camiseta branca, uma cadeira de praia e um radinho de pilha. Dmitri dizia que aqueles quatro foram feitos uns para os outros.
Dmitri pula a cerca e Laika corre para ele. Na Rússia Soviética, a cerca pula o cachorro! disse Dmitri com a cadelinha nos braços, mas o velho não queria saber: Va al diavolo con tua Rússia Soviética!, e batia a porta. Na Rússia Soviética, a porta bate em você, resmungou Dmitri, mas não havia ninguém mais para ouvir.
Só assim o velho entrava em casa, quando discutia com Dmitri. Dmitri volta para dentro, e diz para a aluna espantada com a gritaria: Na Rússia Soviética, sempre tem um cachorro buscando você. Depois do alívio, os alunos sabiam que eram essas coisas que faziam valer a pena as aulas de russo.
Na hora do chá de Dmitri, ele pega sua caneca de metal e se senta na varanda onde vê a casa do outro vizinho, que para compensar a do o Italiano, é imaculada. É naquela hora que Júlio Cezar chega do trabalho todos os dias desde que Dmitri chegou ao Brasil. Júlio Cezar, sempre arrumadinho, olhar cansado e carro conservado, chegando todos os dias no mesmo horário. Dmitri lembra de uma vez ele demorou 30 minutos além do costume, e ficou preocupado, mas foi só um pneu furado. Azar, né? ele disse. Na Rússia Soviética, o carro dirige você, consolou-o Dmitri. Todos eram muito educados em sua casa. Até as crianças, que até pareciam meio tristonhas. Hoje em dia não é mais assim, né?, dizia Cezar orgulhoso enquanto afrouxava a gravata. Quando eles se conheceram ele não afrouxava a gravata na presença do Dmitri, mas agora ele se sente totalmente à vontade.
Mas um dia teve uma briga na casa de Júlio Cezar, e sua esposa foi embora junto com as crianças. Quando percebeu que estava ainda mais abandonado que antes, Júlio Cezar então andou até a garagem e ficou olhando para a janela da cozinha de Dmitri, com alguma expectativa. Dmitri só apareceu depois de meia hora para lavar sua caneca. Minha mulher foi embora, né?, disse Júlio Cezar, com as sobrancelhas mais arqueadas que o costume. Dmitri percebeu o que tinha acontecido, fechou a torneira, pensou longamente, fez uma pausa, respirou fundo e por fim disse: Na Rússia Soviética, o homem chato sai de casa..
Se a eternidade parece longa, aquele momento durou duas vezes mais. Ambos se entreolhavam, enquanto Dmitri ansiava pela resposta de Júlio Cezar, e Júlio Cezar via esvaecer sua esperança de ouvir algo de Dmitri que pudesse lhe aliviar a agonia. Está tarde, vou dormir, né? Boa noite. Disse Cezar. Até tu, Dmitri? Naquele instante, Cezar não respondeu a Dmitri sobre seu sábio conselho, mas não dormiu aquela noite, perscrutando as palavras do russo.
O quarto de Dmitri dava de frente para o quintal do Italiano, ele já o ouviu berrar muitas vezes através daquela janela. Mas naquela manhã seria diferente. Dmitri! Hoje io mato tuo cachorro! Esbravejou o velho, dessa vez soava ainda mais febril e atormentado que de costume. Dmitri abre sua janela, ainda de pijama, e vê o velho transtornado, com o rosto vermelho e suado, a pança sambeando, correndo atrás de Laika que latia para o alto e saracoteava pelo quintal, fugindo do velho sem a menor dificuldade. Dmitri chama, e Laika pula a cerca e corre para baixo da janela, arfando e abanando o rabinho. E o Italiano, bufando e arfando mais que Laika, com o dedo em riste, gritava, ameaçava e engasgava ao mesmo tempo enquanto Dmitri sorria cinicamente, o que enfureceu ainda mais o velho: Na Rússia Soviética, a piada ri de você, disse Dmitri, fechando a janela e deixando o velho para fora à beira de um ataque de nervos.
Dmitri está satisfeito. Naquela semana dera bons conselhos aos seus vizinhos, e ele gostava muito de ajudar as pessoas. Mais tarde, naquele dia, na hora do chá, ele senta em sua cadeira, olha para a rua e pensa sobre tudo aquilo que se passava, ouvindo uma sucessão de barulhos estranhos que começavam vindos da casa do Italiano. Ele fica curioso, mas prefere não incomodar mais o velho, e fica ali meditando sobre a rua, os vizinhos e a caneca de chá. Na Rússia Soviética, você esquenta o chá, pensou. Dmitri então percebe que Júlio Cezar está atrasado, e teme que algo lhe tenha acontecido, ou que ele tenha cometido alguma bobagem. A casa dele está muito vazia, e parece um lugar ainda mais triste do que antes.
Dmitri dá uma espiada na rua, e nota que o Italiano jogou quase todos os seus móveis na calçada, e fez uma tremenda bagunça, e a bagunça do Italiano era muito mais interessante que a casa vazia de Júlio Cezar. Dmitri pára e olha longamente para aqueles móveis tão antigos e tão mal tratados, e para a molecada da rua pulando em cima deles. Mais curioso ainda, era ver que no varal estava a camiseta do Italiano, limpa. Dmitri nem se lembrava quando ele tinha lavado aquilo pela última vez, talvez quando o velho ainda não fosse viúvo, quem sabe. Então, sai de casa o Italiano, com uma camisa totalmente cafona, fora de moda e incrivelmente nova. Ei, Dmitri, ele diz acenando, e fazendo um enorme esforço para sorrir. Dmitri sorri e acena em retribuição, imaginando que os músculos de sorrir já quase não existem mais no rosto caído do velho.
Acaba-se o chá e Dmitri vai para dentro, imaginando por onde andaria Júlio Cezar. Dmitri mal dormiu naquela noite, e num desses curtos intervalos de sono acordou com uma batida de carro que o fez pular da cama. Lá fora, tarde da noite, está o carro de Júlio Cezar parado sobre o próprio gramado, com uma roda sobre as flores de sua esposa, e a outra sobre um anão de jardim de cerâmica caído, que se parecia divertidamente com o Italiano. Então Júlio Cezar sai cambaleante de dentro do carro, grita uns palavrões obscenos e vai se apoiando pelas paredes em direção a porta. Em seguida ele nota a expressão espantada de Dmitri do outro lado do muro, levanta a mão e o saúda com um urro grotesco e desafinado. Na Rússia Soviética, a vodka toma você., gritou de volta, e voltou para terminar seu sono.
Como se não bastasse a noite mal dormida, Dmitri ainda é acordado pelo ronco de um caminhão bem em frente a sua casa. Lá fora, alguns homens entregavam móveis novos na casa do Italiano, que estava radiante com sua camiseta limpa e sentado num sofá colocado na varanda que não se parecia em nada com sua cadeira. Buono dia, Dmitri, e foi o primeiro bom dia em vinte e muitos anos de vizinhança. Na Rússia Soviética, a casa arruma você, disse.
Do outro lado da casa, Júlio Cezar ainda não saíra para trabalhar, e o carro continuava naquela situação, e Júlio Cezar devia estar numa situação ainda pior. Enquanto Dmitri admirava o resultado da manobra da noite anterior, o vizinho aparece com o rosto inchado, descabelado e metido num pijama de flanela xadrez que lembrava o Júlio Cezar de antes. Dmitri nunca o tinha visto de pijama, inclusive achava que Cezar poderia dormir de terno e acordar penteado. Ontem eu me diverti muito, né? Fazia tempo, desde faculdade. Dmitri sinalizou afirmativamente com a cabeça e com um discreto sorriso de aprovação, apesar de estar um pouco preocupado com as conseqüências dos divertimentos do vizinho.
Dmitri volta para dentro e coloca água para ferver. Ele lava sua xícara enquanto olha para fora. De volta ao quintal, vê o italiano sorrindo numa cadeira de praia novinha, jogando um graveto que Laika corre para buscar e leva de volta, abando o rabo.
Na Rússia soviética, a vida cuida de você.
enviada por El Matador
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